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E se as pesquisas em cosmologia não for mais humana? Como a IA está conduzindo nosso estudo do cosmos.

Estamos apenas arranhando a superfície do que a colaboração inovadora entre astrônomos humanos e IA pode desbloquear.


Notícias

Por Paul Sutter

Tradução e adaptação de Marco Centurion

 

Como desvendar os segredos mais profundos do universo quando os dados se acumulam mais rápido do que conseguimos compreendê-los? É um pouco como receber um zilhão de peças de um quebra-cabeça de uma explosão cósmica e ser instruído a recriar a estrela original.


O universo é vasto, e nossos métodos para explorá-lo precisam ser igualmente inventivos. (Créditos da imagem: Yuichiro Chino/Getty Images)
O universo é vasto, e nossos métodos para explorá-lo precisam ser igualmente inventivos. (Créditos da imagem: Yuichiro Chino/Getty Images)

A análise moderna de dados cósmicos enfrenta alguns desafios algorítmicos realmente intrigantes, exigindo não apenas engenhosidade, mas maneiras totalmente novas de buscar respostas em vastos espaços conceituais. Nossos algoritmos cosmológicos tradicionais, aqueles procedimentos computacionais e modelos que usamos para analisar dados astronômicos, simular a evolução do universo e reconstruir suas propriedades físicas, só conseguem nos levar até determinado ponto.


Mas e se o próximo grande astrônomo nem sequer for humano? E se for alguma Inteligência Artificial (IA) que aprendeu a escrever seu próprio código? É aí que uma estrutura bastante engenhosa chamada MadEvolve entra em cena no palco cósmico.


Imagine um aprendiz persistente e incansável, projetado para pegar nossos algoritmos científicos existentes, testá-los profundamente e então torná-los fundamentalmente melhores. Isso é o que é o MadEvolve, ou seja, um sistema construído para melhorar algoritmos de forma iterativa, começando com uma versão básica escrita por humanos e, então, otimizando incansavelmente seu desempenho por meio de modificações inteligentes e sucessivas no código.


E não se trata apenas de pequenos ajustes. Em diversas tarefas cruciais da cosmologia computacional, o MadEvolve apresentou melhorias substanciais em relação aos nossos melhores algoritmos de referência desenvolvidos por humanos, chegando até a estabelecer um novo estado da arte em algumas configurações de simulação. Então, como exatamente esse prodígio digital consegue tais feitos cósmicos?


A verdadeira magia do MadEvolve está em sua colaboração engenhosa entre duas ideias poderosas. De um lado estão os modelos de Linguagem de Grande Escala e do outro a programação evolutiva. Um Modelo de Linguagem de Grande Escala, ou LLM, é um tipo de programa de inteligência artificial treinado com quantidades colossais de dados textuais, permitindo que ele compreenda, gere e processe a linguagem humana, o que, como se vê, inclui escrever e entender código de computador. No caso do MadEvolve, esses LLMs atuam como operadores inteligentes de mutação, sugerindo modificações no código existente, quase como um programador particularmente perspicaz.


Já a programação evolutiva é uma classe de algoritmos de otimização inspirados na seleção natural. Pense nisso como uma versão digital da sobrevivência do mais apto para código de computador, na qual gerações de soluções candidatas evoluem e melhoram por meio da aplicação de operações como mutação e seleção.


O MadEvolve seleciona um programa “pai” a partir de uma população diversificada de algoritmos, solicita ao LLM modificações, avalia os novos programas com base em métricas fundamentadas na física e então atualiza a população de acordo com esses resultados. Esse ciclo iterativo, combinado com otimizações separadas para estrutura e parâmetros, permite que o sistema refine continuamente suas criações. É uma demonstração impressionante de evolução computacional.


Um algoritmo de IA conseguiu recentemente descobrir 1.300 anomalias, ou objetos com aparências incomuns, em dados de arquivo do telescópio Hubble. Centenas dessas anomalias nunca haviam sido documentadas antes. (Créditos da imagem: ESA/Hubble & NASA, D. O’Ryan, P. Gómez (Agência Espacial Europeia), M. Zamani (ESA/Hubble))
Um algoritmo de IA conseguiu recentemente descobrir 1.300 anomalias, ou objetos com aparências incomuns, em dados de arquivo do telescópio Hubble. Centenas dessas anomalias nunca haviam sido documentadas antes. (Créditos da imagem: ESA/Hubble & NASA, D. O’Ryan, P. Gómez (Agência Espacial Europeia), M. Zamani (ESA/Hubble))

Agora, você pode estar se perguntando o seguinte “espere um pouco, os LLMs não têm sido um tanto… inconsistentes quando se trata de física rigorosa?” E você estaria certo. Modelos de Linguagem de Grande Escala frequentemente enfrentam dificuldades com derivações e cálculos precisos em física teórica, às vezes apresentando raciocínios inconsistentes. Mas é exatamente aí que o MadEvolve realmente se destaca com sua engenhosidade. Ele não pede ao LLM que invente novas teorias físicas do zero. Em vez disso, restringe o LLM a tarefas definidas por humanos que possuem métricas de avaliação claras e verificáveis. Os avaliadores baseados em física mantêm o LLM sob controle, garantindo que as alterações sugeridas no código realmente melhorem o desempenho.


O MadEvolve foi testado em alguns dos cenários mais desafiadores da cosmologia computacional. Ele alcançou melhorias substanciais em tarefas como a reconstrução das condições iniciais do universo, a remoção de contaminação de primeiro plano em sinais cósmicos tênues e o ajuste fino da física em simulações de N-corpos. Para a reconstrução das condições cósmicas iniciais, ele de fato superou o estado da arte humano, estabelecendo um novo padrão para como compreendemos o universo primitivo.


Esses avanços representam um salto em nossa capacidade de extrair insights significativos do enorme fluxo de dados cósmicos, expandindo os limites do que acreditávamos ser possível com os métodos atuais. É um sinal de que as próprias ferramentas que usamos para explorar o cosmos estão prestes a receber uma grande atualização.


Mas a história não termina na cosmologia. Esse incrível sistema MadEvolve foi construído como uma estrutura geral, o que significa que pode se mostrar útil em inúmeros outros campos científicos. Vamos refletir sobre, desde a otimização de geração de código e engenharia de software até o refinamento de redes neurais e diversas outras tarefas generativas, a sinergia integrada entre LLMs e algoritmos evolutivos possui um potencial imenso.


Estamos apenas arranhando a superfície do que essa colaboração inovadora pode revelar. O universo é vasto, e nossos métodos para explorá-lo precisam ser igualmente inventivos.



Artigo encontrado no site Space.com (originalmente publicado em 22/03/2026)

 
 
 

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