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O que acontece dentro das estrelas de nĂȘutrons, os objetos mais densos do universo?

  • 30 de abr. de 2025
  • 4 min de leitura

NĂłs realmente nĂŁo sabemos, mas provavelmente envolve uma fĂ­sica verdadeiramente bizarra.


NotĂ­cias

Por Paul Sutter

Traduzido por Marco Centurion


Esta concepção artĂ­stica retrata um magnetar — um tipo de estrela de nĂȘutrons com um campo magnĂ©tico forte. (CrĂ©dito da imagem: NASA/JPL-Caltech)
Esta concepção artĂ­stica retrata um magnetar — um tipo de estrela de nĂȘutrons com um campo magnĂ©tico forte. (CrĂ©dito da imagem: NASA/JPL-Caltech)

Estrelas de nĂȘutrons sĂŁo alguns dos objetos cĂłsmicos mais estranhos, e os maiores mistĂ©rios estĂŁo profundamente em seus interiores.


Elas sĂŁo os nĂșcleos remanescentes de estrelas que explodiram e constituem o material mais denso conhecido no universo. Uma estrela de nĂȘutrons tĂ­pica tem uma massa algumas vezes maior que a do Sol, comprimida em uma regiĂŁo com apenas uma dĂșzia de quilĂŽmetros de diĂąmetro. Nas camadas mais externas das estrelas de nĂȘutrons, a densidade Ă© bilhĂ”es de vezes maior que a de um diamante. No nĂșcleo das estrelas de nĂȘutrons, as pressĂ”es esmagadoras podem romper os nĂșcleos atĂŽmicos, talvez atĂ© os prĂłprios prĂłtons e nĂȘutrons.


A gravidade superficial das estrelas de nĂȘutrons Ă© tĂŁo intensa que as maiores “montanhas” tĂȘm apenas alguns milĂ­metros de altura. Suas superfĂ­cies sĂŁo super estranhas: consistem em uma crosta de nĂșcleos atĂŽmicos pesados espremidos em uma rede cristalina com elĂ©trons livres para se movimentar entre eles.


Mais profundamente, a enorme gravidade permite que isĂłtopos exĂłticos e raros existam em abundĂąncia. Normalmente, Ă© possĂ­vel colocar apenas um certo nĂșmero de nĂȘutrons em um nĂșcleo antes que ele se desintegre, devido aos efeitos repulsivos da força nuclear forte resistindo Ă  coesĂŁo. Mas a gravidade da estrela de nĂȘutrons mantĂ©m tudo unido. AtĂ© uma profundidade de aproximadamente um quilĂŽmetro, nĂșcleos atĂŽmicos podem conter centenas de nĂȘutrons de uma sĂł vez.


Mas atĂ© isso tem um limite. A pouco mais de meio quilĂŽmetro de profundidade, atĂ© mesmo esses nĂșcleos de tamanho impossĂ­vel se desfazem. Essa Ă© a chamada "linha de gotejamento", onde nĂȘutrons começam a escapar dos nĂșcleos. Normalmente, nĂȘutrons livres se desintegram em cerca de 15 minutos. Mas os confinamentos intensos do interior da estrela de nĂȘutrons mantĂȘm os nĂȘutrons estĂĄveis e livres para se moverem.


A apenas cerca de 2 quilĂŽmetros de profundidade, a matĂ©ria assume talvez sua forma mais estranha: a “massa nuclear”. Nesta regiĂŁo, onde a crosta transita para o nĂșcleo, forças titĂąnicas, gravidade, força nuclear forte e repulsĂŁo eletromagnĂ©tica, competem pela dominĂąncia. Isso leva Ă  formação de nĂșcleos atĂŽmicos estranhos e irregulares com formas exageradas, conhecidos como gnocchi.


Abaixo disso, os aglomerados individuais se comprimem formando tubos longos (relativamente falando; tudo aqui ainda Ă© microscĂłpico), conhecidos como espaguete. Em seguida, os espaguetes se fundem para formar lasanha, que por sua vez se funde em uma massa Ășnica e uniforme. Mas essa massa apresenta defeitos e buracos — o “antiespaguete” e o “antignocchi”.


Ao todo, a região da pasta nuclear tem apenas cerca de 100 metros de espessura, mas pesa mais do que 3.000 Terras. É muita pasta!


Uma estrela de nĂȘutrons pode ter o tamanho da cidade de Nova York com uma massa maior que a do Sol. Uma hipotĂ©tica estrela de quarks seria ainda mais densa. (CrĂ©dito da imagem: NASA/Goddard Space Flight Center)
Uma estrela de nĂȘutrons pode ter o tamanho da cidade de Nova York com uma massa maior que a do Sol. Uma hipotĂ©tica estrela de quarks seria ainda mais densa. (CrĂ©dito da imagem: NASA/Goddard Space Flight Center)

Abaixo disso, a cerca de 1,6 km de profundidade, os nĂșcleos simplesmente se desfazem, incapazes de manter suas estruturas no ambiente esmagador. Aqui, nĂȘutrons, prĂłtons e alguns elĂ©trons vagam livremente. E o que realmente acontece na regiĂŁo central de uma estrela de nĂȘutrons Ă© uma questĂŁo muito debatida, porque a fĂ­sica aqui estĂĄ muito alĂ©m da nossa compreensĂŁo atual.


Suspeita-se fortemente que a regiĂŁo externa do nĂșcleo seja um superfluido, onde os nĂȘutrons se movem com viscosidade e atrito zero. Os prĂłtons restantes nessa profundidade tambĂ©m se tornam um supercondutor, sem resistividade elĂ©trica. Nessas profundezas, a densidade Ă© comparĂĄvel Ă  de um nĂșcleo atĂŽmico, com os prĂłtons e nĂȘutrons espremidos o mĂĄximo possĂ­vel. Essa regiĂŁo de uma estrela de nĂȘutrons Ă©, para todos os efeitos, um Ășnico nĂșcleo atĂŽmico macroscĂłpico, mantido unido nĂŁo pela força nuclear forte, mas pela força gravitacional pura.


Os nĂȘutrons nessa regiĂŁo desempenham um papel fundamental em sustentar a estrela contra um colapso gravitacional ainda maior. Uma forma disso Ă© por meio da chamada “pressĂŁo de degenerescĂȘncia”, eles estĂŁo tĂŁo comprimidos que vibram com velocidades incrivelmente altas, prĂłximas Ă  da luz, o que gera pressĂŁo. AlĂ©m disso, a força nuclear forte Ă© repulsiva entre os nĂȘutrons, o que os impede de se comprimirem ainda mais.


Nas regiĂ”es mais profundas do nĂșcleo, no entanto, simplesmente nĂŁo temos ideia. As densidades no nĂșcleo mais interno sĂŁo maiores do que em um nĂșcleo atĂŽmico. NĂŁo temos esperança de replicar ou recriar essas condiçÔes em laboratĂłrio, entĂŁo sĂł dispomos de modelos matemĂĄticos imprecisos para nos guiar. Em alguns modelos, os nĂȘutrons mantĂȘm seu estado superfluido.


Em outros modelos, formas diferentes de matĂ©ria, como hiperons, deltas e condensados de bĂłsons, podem surgir. Isso Ă© possĂ­vel porque nĂȘutrons e prĂłtons sĂŁo compostos por partĂ­culas ainda menores, chamadas quarks. Nessas condiçÔes, os quarks podem se organizar e combinar de formas que seriam instantaneamente instĂĄveis em qualquer outro ambiente. Mas aqui, podem ser perfeitamente estĂĄveis. Em outros modelos ainda, todos os prĂłtons e nĂȘutrons, e atĂ© mesmo seus primos mais exĂłticos, se desintegram completamente, formando uma sopa de quarks e glĂșons, os portadores da força nuclear forte.


Mas tudo isso Ă© pura especulação. A estrela de nĂȘutrons mais prĂłxima estĂĄ a centenas de anos-luz de distĂąncia, e mesmo se pudĂ©ssemos abri-la, as condiçÔes especiais que criam esses estados exĂłticos se desfariam. EntĂŁo, por enquanto, a Ășnica maneira de espiar dentro das estrelas de nĂȘutrons Ă© com matemĂĄtica, e uma boa dose de suposiçÔes.



Artigo original encontrado em space.com  (originalmente publicado em 29/04/2025)

 
 
 
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