Ferramenta acaba de criar o mapa 3D mais abrangente do nosso universo já feito: “Esta é uma grande mudança de paradigma”.
- marcocenturion
- há 6 dias
- 4 min de leitura
“Esta pode ser a descoberta mais interessante na cosmologia desde a própria descoberta da energia escura.”
Notícias
Por Robert Lea
Traduzido e adaptado por Marco Centurion
O Instrumento Espectroscópico de Energia Escura (DESI, na sigla em inglês) concluiu sua missão de cinco anos para construir o maior mapa 3D do cosmos já criado, com o objetivo de investigar a energia escura, aquela misteriosa força que impulsiona a expansão acelerada do universo. O mapa 3D foi finalizado antes do previsto na noite do dia 14 de abril, mas o DESI está longe de encerrar suas atividades. Com esse mapa em mãos, ele continuará a investigar alguns dos maiores mistérios da cosmologia.

“O DESI superou as expectativas. Isso é algo muito significativo, porque a equipe do DESI conseguiu concluir um programa de levantamento extremamente ambicioso dentro do prazo e do orçamento. Anos atrás, quando planejamos o DESI pela primeira vez e solicitamos apoio ao Departamento de Energia, não estava nada claro que conseguiríamos alcançar isso”
disse Klaus Honscheid, cientista líder das operações do instrumento DESI e professor da Universidade de Ohio, ao Space.com.
O DESI, composto por 5.000 sensores de fibra óptica montados no telescópio Nicholas U. Mayall de 4 metros, no Observatório Nacional de Kitt Peak, no Arizona, superou as expectativas ao observar 47 milhões de galáxias e quasares, as regiões centrais de galáxias alimentadas por buracos negros supermassivos em acreção, além de mais de 20 milhões de estrelas próximas. Inicialmente, os cientistas previam que cerca de 34 milhões de galáxias e quasares comporiam o conjunto de dados final quando as operações começaram em maio de 2021. Estamos vendo um aumento de seis vezes em relação às observações anteriores de galáxias e quasares.
“Nossa capacidade de concluir o levantamento em cinco anos foi desafiada mais de uma vez. Todos na equipe de operações trabalharam incrivelmente duro para manter o progresso com alta eficiência. E, com razão, estamos todos muito orgulhosos de termos alcançado esse objetivo”
disse Honscheid.
Os pesquisadores estão ansiosos para acessar o conjunto completo de dados dos cinco anos do DESI. Utilizando apenas as observações do primeiro ano, os cientistas já haviam identificado evidências intrigantes de que a energia escura é ainda mais estranha do que o previsto, sugerindo que talvez seja necessário revisar o modelo padrão da cosmologia, que representa atualmente a melhor descrição da evolução do universo até seu estado atual.

Já causa impacto!
A energia escura representa um mistério tão grande porque, embora corresponda a cerca de 70% do conteúdo total de matéria e energia do universo, os cientistas não sabem o que ela é exatamente. Descoberta no final da década de 1990, a energia escura é, na prática, apenas um nome provisório para a força que está fazendo as galáxias se afastarem umas das outras cada vez mais rapidamente. Caso sejamos capazes de realizar observações diretas a este componente misterioso do universo, talvez um novo nome de batismo surja.
“O mistério da energia escura surge a partir de observações que combinam diversas sondas cosmológicas, incluindo oscilações acústicas de bárions (BAO), o fundo cósmico de microondas e supernovas do tipo Ia. Nenhuma dessas sondas, isoladamente, possui sensibilidade suficiente para resolver o enigma da energia escura. Os dados que o DESI já reuniu permitirão fortalecer nossas conclusões e esclarecer quais possibilidades ainda permanecem viáveis.”
disse Nathalie Palanque-Delabrouille, colaboradora do DESI e cientista do Berkeley Lab, ao Space.com.
Após analisar os dados do primeiro ano do DESI, em abril de 2024, e rastrear o efeito da energia escura ao longo de 11 bilhões de anos da história cósmica, os cientistas revelaram ter encontrado indícios sugestivos de que a energia escura está enfraquecendo. Caso isso seja confirmado pelo mapa completo do DESI, representará uma descoberta importante e empolgante, já que o modelo padrão da cosmologia, que também é conhecido como modelo Lambda Matéria Escura Fria (ΛCDM), prevê que a energia escura seja constante, ou seja, que não varia em intensidade.
“Esta é uma grande mudança de paradigma. Todos os dados até agora eram compatíveis com um modelo cosmológico padrão no qual a expansão acelerada do universo era causada por uma constante cosmológica. A aceleração enfraquecida observada pelo DESI não pode mais ser explicada por uma constante cosmológica. Esta pode ser a descoberta mais interessante na cosmologia desde a própria energia escura.”
afirmou Nathalie Palanque-Delabrouille.
Os primeiros artigos baseados no programa completo de cinco anos do DESI devem começar a ser publicados ao longo de 2027. Mesmo antes de esses resultados começarem a surgir gradualmente, a conclusão da missão inicial do DESI já representa um marco científico significativo.
“Um dos aspectos mais importantes do ponto de vista científico é a notável coesão dessa grande colaboração: mais de 900 cientistas, incluindo cerca de um terço de estudantes de pós-graduação, todos trabalhando em direção aos mesmos objetivos. O trabalho é realizado em 14 países e 75 instituições, ainda assim os dados são analisados em tempo hábil, e o DESI já publicou resultados importantes com seus conjuntos de dados do primeiro e do terceiro ano. O que me surpreendeu — ou melhor, me impressionou — é que o DESI continua operando dentro do cronograma, e até adiantado, apesar da pandemia e do incêndio Contreras, que atingiu o observatório de Kitt Peak em 2022.”
disse Palanque-Delabrouille.
“O ritmo do DESI é realmente impressionante.”
A pesquisa da equipe foi publicada em dois artigos na revista Astronomy & Astrophysics que podem ser lidos aqui e aqui.
Artigo encontrado no site Space.com (originalmente publicado em 15/04/2026)




Comentários