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Podemos prever o clima espacial. Mas e se também pudéssemos controlá-lo?

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

"Quando se aplica uma física realmente séria a isso, funciona. E a quantidade de massa de que precisamos, as capacidades de lançamento, tudo isso está dentro das nossas possibilidades tecnológicas atuais."


Por Andrew Thurston, Universidade de Boston

Editado por Stephanie Baum, revisado por Robert Egan

Traduzido e adaptado por Marco Centurion


O clima na Terra pode ficar bastante complicado às vezes. Mas no espaço, ele pode ser selvagem, e seus efeitos podem ser de longo alcance. Erupções solares, gigantescas explosões no Sol, podem emitir fluxos de energia que bloqueiam comunicações por rádio e danificam componentes eletrônicos de satélites. Tempestades geomagnéticas, causadas por variações no vento solar, podem interferir nos sinais de GPS e provocar surtos de corrente na Terra que sobrecarregam redes elétricas.


 

Créditos da imagem: CC0 Public Domain
Créditos da imagem: CC0 Public Domain

 

O impacto do clima espacial não se limita à perda temporária de eletricidade ou à necessidade de recorrer a mapas de papel antigos e que ninguém mais usa, para obter direções quando os sistemas de navegação por satélite falham. Toda transação financeira eletrônica do mundo, por exemplo, depende de registros de tempo enviados por sistemas de satélite. Em maio de 2024, uma tempestade solar desestabilizou sistemas de GPS usados para orientar com precisão tratores durante o plantio e a colheita, prejudicando a produção de alimentos por dias e causando um prejuízo de US$ 500 milhões aos agricultores dos Estados Unidos.

 

Embora satélites possam ser construídos com blindagens mais resistentes ou ter suas órbitas ajustadas, essas são apenas soluções paliativas, pois atualmente, há pouco que possamos fazer para nos proteger das tempestades espaciais.

 

O pesquisador da Universidade de Boston, Brian Walsh, tem uma ideia de como mudar isso. Ele vem testando a viabilidade teórica de um sistema de espaçonaves que poderia disparar elementos químicos até a borda do campo magnético da Terra, fortalecendo temporariamente nossas defesas e desviando eventos de clima espacial potencialmente danosos. Em simulações, Walsh e pesquisadores da Universidade de Michigan descobriram que o sistema poderia reduzir pela metade a intensidade de uma grande tempestade geomagnética. Os resultados foram publicados na revista Space Weather e podem ser lidos na íntegra aqui.

 

"Desde que os seres humanos estão no espaço, estamos tentando prever o que vai acontecer no ambiente espacial. Mas criamos um modelo que poderia inverter o paradigma. É como pessoas em uma aldeia que veem um rio transbordando. Talvez elas consigam prever quando isso vai acontecer, mas provavelmente o que seria ainda melhor é se pudessem construir uma barreira contra a tempestade. É isso que estamos propondo aqui."

diz Walsh, professor associado de engenharia mecânica da Faculdade de Engenharia da Universidade de Boston.

 


Diagrama esquemático do conceito de carregamento de massa. Espaçonaves em órbita geoestacionária liberam material que deriva até a magnetopausa no lado diurno. A geometria mostra uma seção no plano equatorial da Terra. (Créditos da imagem: Space Weather (2026). DOI: 10.1029/2025SW004846)
Diagrama esquemático do conceito de carregamento de massa. Espaçonaves em órbita geoestacionária liberam material que deriva até a magnetopausa no lado diurno. A geometria mostra uma seção no plano equatorial da Terra. (Créditos da imagem: Space Weather (2026). DOI: 10.1029/2025SW004846)

 

 

Fazendo as tempestades passarem pela Terra.

 

Walsh diz que sua ideia de uma barreira contra o clima no espaço foi inspirada por um fenômeno natural. O material que se desprende da atmosfera da Terra e flutua até a borda da bolha protetora do nosso planeta, a magnetosfera, fortalecendo-a.

 

"Eu pensei: talvez fosse possível intensificar [esse processo], aumentar sua intensidade", diz ele.

 

Seu sistema proposto, chamado StormWall, começaria com o lançamento de seis espaçonaves em uma órbita geoestacionária, isto é, que acompanha a própria rotação da Terra. Cada espaçonave seria equipada com um reservatório carregado com o que os pesquisadores chamam de material de carregamento de massa. Quando liberado, o material, que seria um elemento químico alcalino como bário ou lítio, sofreria fotoionização, um processo que induz uma carga elétrica, semeando a atmosfera com plasma.

 

Em suas simulações, Walsh e seus colegas descobriram que esse plasma interromperia o fluxo de energia entre qualquer tempestade solar e a magnetosfera e isso seria suficiente para fazer o clima espacial desviar e passar ao redor do nosso planeta.

 


Não é ficção científica!

 

Walsh admite que uma barreira climática no espaço soa um pouco como ficção científica, mas afirma que ela está ao nosso alcance.

 

"Quando se aplica uma física realmente séria a isso, funciona. E a quantidade de massa de que precisamos, as capacidades de lançamento, tudo isso está dentro das nossas possibilidades tecnológicas atuais. As pessoas sempre pensaram: 'O espaço é enorme, o Sol é gigantesco, simplesmente temos que ficar aqui e aceitar tudo o que ele nos enviar.' Mas o que descobrimos é que podemos influenciar isso."

diz ele.

 

Uma das maiores barreiras para a implementação é o custo. Lançar seis espaçonaves, transportando juntas o equivalente a cerca de uma dúzia de caminhões-tanque de material, não seria barato. E, uma vez que a carga fosse liberada e fotoionizada, o sistema estaria esgotado e não poderia ser reabastecido, seria uma única utilização.

 

Mas, com empresas privadas investindo bilhões em infraestrutura espacial, e até mesmo considerando centros de dados em órbita, Walsh diz que os cálculos de custo-benefício podem em breve favorecer sua abordagem proposta. Em seu artigo, Walsh e seus colegas destacam que uma enorme tempestade geomagnética que ocorre uma vez por século, sendo a última ocorrida em 1859, causaria danos devastadores no espaço e na Terra, com os custos apenas para as redes elétricas ultrapassando US$ 2,4 trilhões.


Ele está confiante de que a equipe também poderá reduzir os custos do StormWall. O próximo passo na agenda é estudar maneiras de reduzir pela metade a quantidade de material utilizada, simular uma liberação pulsada de materiais para prolongar a vida útil do sistema e examinar órbitas potencialmente mais eficientes. Eles também querem investigar mais profundamente a química envolvida para determinar quais são os melhores elementos a serem utilizados.

 

Embora o lixo espacial seja um grande problema na atmosfera inferior da Terra, Walsh afirma que quaisquer materiais injetados em regiões mais altas seriam rapidamente removidos do sistema depois de cumprirem sua função.

 

"O material deriva por essas rodovias naturais, deixa o sistema, a magnetosfera remove esse material em cerca de seis horas."

 

 

Geoengenharia espacial

 

Como diretor do Laboratório de Física e Tecnologia Espacial da Universidade de Boston, grande parte da pesquisa mais ampla de Walsh está focada em observar e compreender melhor o ambiente espacial ao redor da Terra; ele e sua equipe participaram recentemente de uma missão que enviou um telescópio à Lua para obter imagens do nosso escudo magnético. Embora o projeto StormWall esteja vagamente conectado a esse trabalho mais amplo, Walsh diz que ele é um pouco fora da curva:

 

"Isso é bastante diferente do que qualquer pessoa está fazendo neste momento. Não conheço ninguém propondo fazer geoengenharia espacial."

 

Caso a ideia literalmente decole, ele diz que, ao contrário de algumas missões espaciais que podem gerar benefícios para poucos, esta beneficiaria todos nós.


"Se você a construísse, se ela fosse implantada, ajudaria todas as pessoas do planeta. Não seria possível fazê-la de uma forma que ajudasse apenas um país ou apenas um grupo de satélites."

Concluiu Walsh.



Artigo encontrado no site Phys.org (originalmente publicado em 03/06/2026)

 
 
 

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