Dos céus de Itapetininga para o mundo: conheça o clube de astronomia que leva o nome da cidada ao espaço
Nos 256 anos de Itapetininga, conheça a trajetória do Clube de Astronomia Centauri de Itapetininga, uma iniciativa que há mais de uma década promove educação científica, inspira estudantes e conecta a cidade ao universo da pesquisa e da divulgação científica.
Neste 5 de novembro de 2026, Itapetininga celebra 256 anos de história. Entre suas inúmeras contribuições para a sociedade, também existem iniciativas que ajudam a construir uma identidade ligada à educação, à ciência e à inovação. Uma delas é o Clube de Astronomia Centauri de Itapetininga, projeto criado em 2015 com a missão de aproximar a população do conhecimento sobre o Universo.

A história começou alguns anos antes. Em 2013 e 2014, quando Rodrigo Raffa ingressava no curso de Física e começava a aprofundar seus estudos em astronomia, percebeu uma dificuldade: havia poucas oportunidades de acesso a materiais especializados, grupos de estudo, professores e profissionais dedicados à área.
Naquele período, os especialistas em astronomia pareciam atuar de maneira isolada, como verdadeiros "lobos solitários", espalhados pelo país.
Foi dessa percepção que surgiu a ideia de reunir pessoas interessadas no assunto e construir um espaço de compartilhamento de conhecimentos.
"Decidimos agrupar as pessoas que gostam de astronomia e popularizar esse conhecimento, levando-o às escolas, aos ambientes não formais de educação, criando feiras e eventos. Nossa intenção sempre foi democratizar o acesso à astronomia", explica Rodrigo, fundador do clube.
O começo, entretanto, não foi simples. Sem patrocínios ou apoio financeiro permanente, o crescimento aconteceu gradualmente, impulsionado por professores, jornalistas, colaboradores e pessoas que acreditaram na proposta.

Segundo Rodrigo, a visibilidade veio principalmente pelo chamado boca a boca. Professores convidavam o clube para visitar escolas, jornalistas ajudavam a divulgar as atividades e novas pessoas se aproximavam.
Mais de uma década depois, a missão permanece a mesma.
A ciência que aproxima pessoas
Uma das principais contribuições do Clube Centauri está na aproximação entre a astronomia e a educação básica.
Para Rodrigo, os clubes de astronomia desempenham um papel importante porque oferecem conhecimentos mais específicos sobre os astros e apresentam oportunidades que nem sempre fazem parte da formação convencional dos professores.

Entre essas possibilidadejs estão torneios de foguetes, campanhas de identificação de asteroides, classificação de galáxias, registros astronômicos, observações com telescópios e olimpíadas científicas nacionais e internacionais.
São atividades que permitem aos estudantes experimentar a ciência na prática, desenvolver habilidades investigativas e descobrir novas possibilidades profissionais.
Um dos momentos mais marcantes dessa trajetória aconteceu em 2017, quando Itapetininga recebeu o Encontro Paulista de Astronomia, realizado em parceria com o Instituto Federal de São Paulo.
O evento reuniu mais de três mil pessoas em uma tarde de sábado, oferecendo uma programação diversificada, com planetário, exposição de meteoritos, palestras sobre buracos negros e astrofísica estelar, além de uma noite de observação astronômica.
A experiência demonstrou o interesse da população pela ciência.
"Quando as pessoas conseguem observar Saturno através de um telescópio, tanto crianças quanto adultos ficam encantados. É uma experiência que nos motiva a continuar realizando esse trabalho", relata Rodrigo.
De Itapetininga para o cenário internacional
O trabalho desenvolvido pelo Clube Centauri também ultrapassou as fronteiras municipais.
Ao longo de sua trajetória, o grupo estabeleceu parcerias e aproximações com instituições como a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e a Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA).
O reconhecimento também chegou ao cenário internacional.
Rodrigo teve a oportunidade de apresentar os resultados do clube na Alemanha, durante o AstroEdu, encontro internacional que reúne astrônomos, educadores e divulgadores científicos de diferentes países.

Além de compartilhar a experiência de Itapetininga, participou de discussões e conheceu projetos desenvolvidos por planetaristas, professores e profissionais de outras partes do mundo.
"Minha grande felicidade foi perceber que estávamos no caminho certo. As atividades tinham objetivos claros e intencionalidade pedagógica. Isso contribuiu muito para continuarmos nossa trajetória", conta.
O diretor do clube, Marco Centurion, também teve a oportunidade de apresentar trabalhos na Rússia, ampliando a presença internacional da iniciativa.
Para Rodrigo, representar Itapetininga nesses espaços tem um significado especial.
"Nascer em Itapetininga e conseguir alcançar o mundo é algo fantástico. Estamos levando o nome da nossa cidade para outros países e mostrando que a ciência também pode ser desenvolvida no interior."
Astronomia e agronegócio: conexões para o futuro
Em uma cidade com forte presença do agronegócio, Rodrigo também enxerga oportunidades de aproximar a astronomia e as tecnologias espaciais das atividades econômicas locais.
O sensoriamento remoto por satélites, o monitoramento ambiental, o acompanhamento das mudanças climáticas e os estudos meteorológicos são exemplos de aplicações que podem contribuir diretamente com a agricultura.

Outro conceito importante é o fotoperíodo, relacionado à duração diária do período de iluminação solar, que influencia o desenvolvimento de diversas culturas agrícolas.
Para o fundador do Centauri, é necessário ampliar essa percepção: a astronomia não se limita à observação de estrelas e planetas. Ela também está relacionada a tecnologias que já fazem parte da vida cotidiana e que podem contribuir para o desenvolvimento regional.
O interesse pela astronáutica também aparece nas atividades do clube, especialmente nos torneios de foguetes, que estimulam estudantes a conhecer áreas como engenharia aeroespacial, desenvolvimento de satélites e sensoriamento remoto.
Um sonho que se tornou realidade
Ao olhar para os próximos anos, Rodrigo acredita que o clube tem potencial para crescer ainda mais.
Um dos principais objetivos é conquistar uma sede física em Itapetininga, transformando a iniciativa em um centro permanente de divulgação científica, aberto à população e também aos municípios da região.
Entre os projetos imaginados estão a implantação de um planetário, um observatório astronômico, cursos permanentes de formação para professores e atividades de pesquisa e observação.
O observatório poderia desenvolver trabalhos de astrofotografia, acompanhamento de estrelas variáveis e monitoramento de fenômenos astronômicos.

O clube também pretende ampliar suas iniciativas relacionadas à nova economia espacial, incluindo pequenos satélites, conhecidos como CubeSats, e aplicações de dados espaciais.
"Hoje percebo que o Clube Centauri não é mais apenas um sonho do professor Rodrigo. É uma realidade. Mas gostaria que crescesse ainda mais e alcançasse espaços que nenhum outro grupo conseguiu alcançar. Tenho projetos que ainda estão em planejamento, mas tenho certeza de que, em 20 anos, teremos um grande grupo de astronomia em nossa cidade e também em nosso país", afirma.
Uma mensagem para os 256 anos de Itapetininga
Além de fundador do clube, Rodrigo é professor de Física, Programação e Robótica e atua na formação de estudantes da cidade. Para ele, contribuir com Itapetininga significa também trabalhar diariamente dentro das salas de aula.
Ao falar sobre o aniversário do município, destaca a qualidade de vida e o ambiente característico das cidades do interior, mas faz um alerta sobre a necessidade de ampliar os investimentos em educação.
"Tenho muito prazer em ser cidadão itapetiningano, morar aqui e contribuir com minha cidade. Gostaria de parabenizar Itapetininga por seu ambiente de cidade do interior e pela qualidade de vida que oferece. Mas também peço que nossa cidade invista mais em educação, porque os benefícios desse investimento aparecem na ciência, na tecnologia e na pesquisa."
Rodrigo chama atenção para um desafio enfrentado por muitos municípios: jovens que precisam deixar suas cidades para buscar oportunidades de formação e, muitas vezes, acabam não retornando.
Para ele, fortalecer a educação é também criar condições para que esses talentos possam desenvolver seus projetos e contribuir com a própria região.
"Vamos aproveitar que nossa cidade tem uma grande qualidade de vida, mas precisamos investir em educação. Vamos melhorar ainda mais nossos indicadores de qualidade de vida por meio do desenvolvimento que a educação proporciona."
O Universo também começa aqui
A história do Clube de Astronomia Centauri de Itapetininga mostra que iniciativas científicas não precisam nascer nos grandes centros para conquistar relevância.
Com colaboração, dedicação à educação e uma missão construída ao longo dos anos, um projeto iniciado por estudantes e entusiastas conseguiu aproximar milhares de pessoas da astronomia e estabelecer conexões com instituições e profissionais de diferentes países.
Nos 256 anos de Itapetininga, essa trajetória representa uma lembrança importante: o desenvolvimento de uma cidade também se constrói pela capacidade de despertar a curiosidade, incentivar o conhecimento e oferecer oportunidades às novas gerações.
Afinal, para descobrir o Universo, não é necessário estar em uma grande metrópole. Às vezes, basta olhar para o céu a partir de uma cidade do interior e ter a oportunidade de começar a fazer perguntas.




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