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Plutão perder seu status de planeta pode ter sido a melhor coisa que já aconteceu à diversidade do sistema solar - nota Centauri.

  • há 1 dia
  • 7 min de leitura

Chegou a hora de dar opinião impopular, mas alguém precisa dizer: eu acho que a reclassificação de Plutão como planeta anão foi algo ótimo para a nossa compreensão do sistema solar e também para o ex-planeta. Deixe-me tentar convencer você também.


Opinião

Por Robert Lea

Traduzido e adaptado por Marco Centurion


Primeiro, vamos dar um pouco de contexto. A controvérsia sobre o planeta Plutão começou exatamente há 20 anos, em 24 de agosto de 2006, quando a União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês) reclassificou o, então, nono planeta do sistema solar como um planeta anão.


Uma ilustração do planeta anão Plutão. (Crédito da imagem: Robert Lea, criada com Canva)
Uma ilustração do planeta anão Plutão. (Crédito da imagem: Robert Lea, criada com Canva)

O motivo da mudança foi resultado da descoberta de mundos semelhantes a Plutão no Cinturão de Kuiper, o anel de corpos gelados e detritos que se estende além da órbita de Netuno. De repente, tornou-se necessário determinar se esses corpos eram planetas ou se a própria definição do que é um planeta precisava ser reformulada. A IAU optou pela segunda opção. Plutão levou o golpe.


A definição de 2006, desenvolvida para a IAU pelos astrônomos uruguaios Julio Ángel Fernández e Gonzalo Tancredi, diz que um planeta é


"um corpo celeste no sistema solar que está em órbita ao redor do Sol, tem massa suficiente para assumir equilíbrio hidrostático, ou seja, assume a forma redonda ou quase redonda e 'limpou a vizinhança' ao redor de sua órbita."

Isso significou que era necessário introduzir uma nova definição para grandes corpos redondos que orbitam o Sol, que atendessem aos dois primeiros critérios, mas não ao terceiro. Assim, os planetas anões foram definidos pela IAU como:


"um objeto em órbita ao redor do Sol que é grande o suficiente para assumir uma forma quase redonda, mas que não conseguiu limpar sua órbita de detritos."


Plutão saiu da categoria de planeta e entrou na categoria de planeta anão porque, ao orbitar o Sol além de Netuno, outros corpos cruzam seu caminho orbital. Assim, Plutão não limpou sua vizinhança. Não é um planeta, então. Perdão!


Mas não fique muito triste. É uma coisa boa, sério.



Plutão ajudou a colocar os planetas anões no mapa cósmico


A redefinição de Plutão teve um efeito estranho sobre o público em geral e até mesmo sobre alguns cientistas, que parecem "sentir pena" do ex-planeta, quase como se ele tivesse sido de alguma forma rebaixado. Existem várias petições no Change.org e em outros sites que exigem a restauração do status de planeta de Plutão. Uma delas, criada em 2024, já tem mais de 1.000 assinaturas.


Algumas petições para tornar “Plutão um planeta novamente” compreendem fundamentalmente mal por que Plutão não é mais um planeta. Veja esta, um tanto irônica, no iPetitions, que afirma que "Plutão não deveria ter seus direitos de planeta tirados dele só porque é pequeno, o Daniel também é, mas isso não faz com que ele deixe de ser humano! Este é um assunto muito urgente! Isso é uma EMERGÊNCIA!!"


Não sei quem é Daniel, mas sei que a reclassificação de Plutão como planeta anão realmente exemplificou o quão diverso o sistema solar realmente é.


Plutão visto pela sonda New Horizons da NASA em 2015. (Crédito da imagem: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Southwest Research Institute)
Plutão visto pela sonda New Horizons da NASA em 2015. (Crédito da imagem: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Southwest Research Institute)

Quando pensamos no sistema solar, pensamos nos planetas orbitando o Sol e nas luas orbitando seus planetas. Talvez imaginemos a visita ocasional de um asteroide ou cometa. A reclassificação de Plutão garante que o público em geral não possa realmente ignorar o fato de que existem muitos corpos do sistema solar com tamanhos intermediários entre planetas e asteroides, que não são menos importantes do que os próprios planetas.


Muitos desses planetas anões existem longe do Sol e não visitam o sistema solar interno, o que significa que não são atingidos por altos níveis de radiação solar. Da mesma forma, geralmente não foram afetados por processos geológicos, o que significa que o material do qual são compostos permanece intacto. Assim, os planetas anões podem funcionar como grandes reservatórios de informação que nos permitem estudar a matéria que existia no sistema solar quando planetas como a Terra começaram a se formar.


Não devemos ignorar os planetas anões quando falamos sobre o sistema solar, e, como o rei dos anões, Plutão é o grande bastião disso. Sua mudança de status fez com que o estudo dos objetos do Cinturão de Kuiper parecesse tão importante quanto o estudo das luas e planetas.

Há também uma razão simples e logística para não tornar Plutão um planeta novamente.


Embora a IAU atualmente reconheça apenas cinco planetas anões, que são Ceres, Plutão, Haumea, Makemake e Éris, os astrônomos estimam que possa haver até 100 deles ainda esperando para serem descobertos.


Se deixarmos Plutão voltar para a festa dos planetas, então todos esses outros planetas anões também deveriam poder voltar, certo? Manter Plutão como planeta anão define melhor o que é um planeta e evita uma situação constrangedora no futuro, na qual as crianças em idade escolar, e no frigir dos ovos todos nós, teriam que memorizar mais de 100 planetas.



Não 'sinta pena' de Plutão


Se você for sentir pena de algum planeta anão, talvez você deva conhecer o caso de Ceres. O planeta anão mais próximo da Terra foi descoberto em 1801, 129 anos antes de Plutão, e foi, portanto, o primeiro planeta anão a ser descoberto, embora, por razões óbvias, não tenha sido definido como tal inicialmente.


Plutão realmente roubou a cena de Ceres como o planeta anão mais proeminente do sistema solar.


Agora te convidamos a pensar um pouco em Éris. Também localizado além da órbita de Netuno, esse planeta anão tem 2.326 quilômetros de diâmetro, o que o torna apenas um pouco menor do que o maior planeta anão do sistema solar, Plutão, que tem 2.377 km de diâmetro. Mas Éris é, na verdade, mais massivo do que Plutão, o que o torna o planeta anão mais massivo do sistema solar, e Éris nunca sequer teve a chance de ser chamado de planeta. O que temos contra Éris?


Onde está a petição para Ceres ou Éris, hein? Em lugar nenhum, e é aí que está questão!


Reserve um pensamento para Ceres (à esquerda) e Éris (à direita), importantes planetas anões que nunca foram classificados como planetas. (Crédito da imagem: NASA/ESO/L. Calçada)
Reserve um pensamento para Ceres (à esquerda) e Éris (à direita), importantes planetas anões que nunca foram classificados como planetas. (Crédito da imagem: NASA/ESO/L. Calçada)

Mas, falando sério, há algo crucial a lembrar em tudo isso, que gira em torno do fato de que a redefinição de Plutão como planeta anão não tirou nada da maravilha ou da beleza do corpo celeste.


A brilhante planície em forma de coração de Sputnik Planitia, composta por gelo de nitrogênio macio, é menos espetacular por pertencer a um planeta anão? As torres de gelo de Plutão, com 3.350 metros de altura, são menos majestosas por se erguerem da superfície de um planeta anão, e não de um planeta?


A visão da New Horizons sobre Plutão, em um novo vídeo da NASA divulgado em 14 de julho de 2017. (Crédito da imagem: NASA/JHUAPL/SwRI/Paul Schenk e John Blackwell, Lunar and Planetary Institute)
A visão da New Horizons sobre Plutão, em um novo vídeo da NASA divulgado em 14 de julho de 2017. (Crédito da imagem: NASA/JHUAPL/SwRI/Paul Schenk e John Blackwell, Lunar and Planetary Institute)

E quanto à névoa azul que envolve o planeta anão? Ou às regiões de gelo em constante mudança de Plutão, que mostram que o ex-planeta é muito mais ativo do que pensávamos anteriormente? Elas são menos fascinantes cientificamente?


As observações feitas pela sonda New Horizons da NASA foram menos monumentais para a humanidade, ou uma conquista científica menos impressionante, só porque essa foi uma viagem de apenas nove anos até um mundo anão?


Claro, a resposta a todas essas perguntas é definitivamente não.


Plutão pode não ser o nono planeta, mas ainda ocupa um lugar de destaque entre os planetas anões em nossas mentes e ajudou a definir toda uma população de corpos do sistema solar.

Vamos reconhecer o valor de Plutão.



Opinião editorial Centauri


Como físico e astrônomo amador, tendo sempre a dizer que a reclassificação de Plutão serve de lembrança, não somente pelas questões levantadas pelo colega Robert Lea que traz diversos fatos em tom muito bem humorado, mas também sobre como o processo científico também está conectado às definições que damos às coisas. A definição de um item na física (e claro também na Astronomia), ajuda a definir as suas propriedades, composições e os fenômenos que a ele estão relacionados.


Porém mesmo assim, ao passo que novos fatos físicos surgem, novas definições podem vir no pacote e a revisão das antigas pode sim ocorrer sem quaisquer entreveros. Essa é uma das belezas do pensamento científico, a constante revisão e progressão de suas ideias. E isso entra em total acordo com o levantado pelo autor do artigo, quem ganha é a diversidade de itens e a gama de conhecimento acumulado pela humanidade no processo.


Contudo é preciso lembrar que na 26ª assembleia da IAU na qual a discussão em questão ocorreu, estiveram presentes cerca de 2500 astrônomos de 75 países e destes cerca de 411 (ou 424, as fontes variam em quantidade) de fato votaram na resolução. Nos registros da ata, consta que diversos dos presentes já tinham se ausentado no momento da votação final. Já em relação ao resultado, a discussão se fechou com 237 votos a favor, 157 contra e 17 abstenções. Isso dá uma representatividade de cerca de 16% dos que estiveram na assembleia. Se levantarmos quantos astrônomos associados a IAU tinha em 2006 pelo mundo todo, o valor explode em 10.000, o que pode levar a representatividade para somente pouco mais de 4%.


Se forem levados em conta aspectos democráticos a decisão pode ser altamente questionada devido ao quórum. Sem contar com outras questões organizativas ocorridas na 26ª assembleia que contrariam o próprio regimento da IAU em relação às votações. E quanto aos argumentos contrários a decisão, há quem diga que o argumento de “limpar” a órbita é vago já que não há uma definição numérica para isso. Além de que, uma vez que a própria Terra possui em sua órbita mais de 10 mil corpos celestes, os Near Earth Objects e Júpiter mais de 100 mil asteroides troianos, ou seja, a Terra e Júpiter são corpos classificados como planetas mas que também não “limparam suas órbitas”. Existem ainda outros aspectos orbitais em relação a Netuno citados pelo opositores a reclassificação, segundo a matéria da BBC News de 2006, publicada logo em seguida a assembleia, com o título turbulento para dizer o mínimo, que em português seria “Votação de Plutão foi sequestrada à revelia”. Tais críticas foram lideradas na época por Alan Stern, que foi cientista-chefe da missão New Horizons.


Uma coisa é certa: essa decisão apesar de ter sido tomada 20 anos atrás, ainda traz à tona diversas controvérsias interessantes e que valem a pena serem acompanhadas, porque, sinceramente, não duvido que a retomem em algum momento, ainda mais com essa onda massiva de exoplanetas sendo descobertos recentemente pelos novos instrumentos disponíveis.



Artigo encontrado no site Space.com (originalmente publicado em 25/08/2026)

 
 
 

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